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“Decifra-me ou te devoro”

Cada nível de escolaridade tem suas particularidades e estas pouco variam com o decorrer dos anos, apesar das mudanças e avanços da sociedade.  Porém, a cada ano, parecem que são inéditas e que os antigos alunos, hoje pais e ou professores e pedagogos, se esquecem do que viveram.

Uma destas vivências é o famigerado Pediculus capitis, mais popularmente conhecido como piolho. Não há escola que não tenha este ser em seu espaço, ou melhor, na cabeça de alguns de seus alunos. Lembro que quando pequena, minha mãe mandava que após o banho, eu e meus irmãos passássemos o pente fino. Miha sorte é que meu cabelo era muito fino, o que facilitava em muito o processo. Depois do pente, ela fazia a busca final, para ver se realmente não tinha nada. E isso era quase que tão comum quanto as lições de casa.

E mesmo assim, todo ano recebo em minha sala, no setor pedagógico, enquanto pedagoga, responsáveis que me outorgam a missão de chamar e suspender outros pais que estão enviando seus filhos com os  parasitas. Preciso então recordar que legalmente é impossível a suspensão de um aluno por esta razão e que o tradicional bilhete será enviado às famílias. A discussão invariavelmente segue seu rumo mantendo o ritual: as famílias reclamam que não adianta e que algo mais drástico precisa  ser feito. Retomo minha fala, sem necessitar de nenhuma dália, lembrando-as que, invariavelemente, ocorre esse episódiodesde que  fomos alunos, aliás, desde que os pais de nossos pais foram alunos,  e que  persistindo, uma convocação mais  específica  será realizada (o que  em função de  todos assumirem a  prática do pente  acaba  se fazendo desnecessária).

Segue e as crianças crescem e vão pré-adolescentes  para  o ensino fundamental II. Lá, é engraçado que além dos pais, os professores também esquecem das práticas inerentes aos estudantes desta faixa etária,  como por exemplo  não lembrar  de fazer trabalhos, de estudar  e de insistir em  matar aula.

Pais, lembrem-se de suas infãncias, elas ajudarão a compreender a infância de agora. Inclusive a razão de tantas agitações e falta de atenção. A escola continua a mesma, a professora e o quadro negro. Algumas vezes, o laboratóro de informática. Mas os demais espaços não permaneceram. Não há mais crianças brincando na rua e nem nas pracinhas. O único espaço para socialização é na escola. E por isso tanta conversa e agitação. Nós brincávamos com os vizinhos antes de ir à escola. Os de hoje não. Nós assistíamos  o Sítio do Pica Pau Amarelo e temíamos a  Cuca.  Eles assistem desenhos num ritmo muito mais acelerado que o nosso Papaléguas e a Cuca, coitada,  o que dizer do medo que tínhamos daquela caverna….Hoje eles  adorariam ficar naquela caverna.

E professores, vamos ser sinceros, estes não são os primeiros alunos a esquecer as tarefas e nem os últimos que matarão as aulas… Aliás, vocês já entregaram o planejamento e  o livro de chamada está em dia?

Entendo, eu preciso correr com alguns relatórios aqui….

Lembrem-se: somos humanos, temos quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde.

Sobre Letania Kolecza

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Letania Kolecza é graduada em Pedagogia, Especialista em Psicopedagogia e em Educação Especial, Mestre em Educação, e atua como professora e pedagoga.

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